Um par de calotas árticas azuladas paradoxalmente tão mornas me magnetizam... têm a velocidade equiparável à da rotação da Terra no seu próprio eixo. Olhos azuis que chamaram minha atenção pra uma certa pessoa logo no meu primeiro dia de Unesp.
Antes do trote. Ela desviava muito o olhar em direção ao meu... e eu também. Não se tratava de um flerte. Se tratava de uma conversa. Uma conversa silenciosa com uma hora e meia de duração entre dois estranhos. Fisicamente ao menos.
Ela ofereceu um chiclete a uma garota ao meu lado, e eu bombardeei-a com uma onda vocálica impetuosa.
- Ei, eu quero também!
Pude até ouvir o ruído do ranger dos seus olhos ao olhar-me pela surpresa, de quebrar tudo aquilo. Ela me ofertou a embalagem. Eu disse:
- Mas é o último!
-Não tem problema!
- De jeito nenhum! Não quero roubar seu namorado!
Gracejos à parte, aquela mulher me chamou a atenção. Ela não quis participar do trote e foi direto pra casa. É realmente muito raro manter contato visual desinteressadamente hoje em dia com as pessoas. Comecei a conversar com ela daquele dia em diante, e ela se mostrou uma pessoa com um coração... como posso dizer? Fofo.
Sua voz de menina, jeito de mulher. Canceriana. Pele branquinha... cabelos louros. Extremamente vaidosa. Portava em seu peito um inseparável pingente prateado com pedrinhas minuciosamente cravejadas. Um "t". Taís.
Taís, a mulher que prefere vermelho a alaranjado. Cúmplice. Discreta. Tímida. Preguiçosa.
Um dia resolvi fazer um trabalho de Física com ela. O trabalho quase não saiu porque um esperava o outro tomar iniciativa.
Ela sempre me disse que sempre gostou do meu jeito tranquilo de levar a vida. De não se desesperar com a pressão do cotidiano, e que queria ser assim um dia também. Sempre me senti lisongiado por isso.
Mulher alta, 1,75m. Nunca saiu de casa sem batom nos lábios, por se achar branca demais. E a maioria das vezes a cor do batom condizia com sua cor favorita.Por ironia ou não, o pingente que ela carregava era idêntico ao de minha ex-namorada. E por ironia ou não, meu coração começou a palpitar ligeiramente mais rápido quando era chegada a hora do abraço de "oi" ou de "tchau".
Ela anfitriou um churrasco. Deixou escapar aos meus ouvidos de moleque chato que tinha um piano em casa. Ela não queria, mas eu torrei sua paciência para que me mostrasse e tocasse. Fugimos do fuzuê por 15 minutos que correram como se por 15 horas, pro silêncio de sua sala de estar, pra tocar piano.
Ela proferiu um maroto "O Bife" seguido de risadas de nós dois.
Eu curti muito isso... e ela disse que sua mãe sabia tocar muito bem... e que quando era criança ficava ouvindo sua mãe tocar piano sempre.
Da sala de estar pude ver o seu quarto de relance, metodicamente impecável, devido a uma operação maternal solicitada via celular exatamente 40min antes de chegarmos ao recinto.
Taís sempre foi uma das pessoas que eu mais tive afeição naquela faculdade. Sempre gostou de dar caronas aos vagabundos que moravam do lado da faculdade... e era usual que descêssemos do carro assistir o jogo de quarta-feira regados a uma caipirinha preparada na hora com pinga mesmo.
Um dia ela me ligou enquanto eu estava na sala de espera de um consultório médico. Foi a espera médica mais rápida que já tive na vida.
Taís sempre foi assim. Emocionalmente inteligente. Sensível. Linda. Simples. Me ensinou um código pra quando eu fosse fazer o número 2. Era só dizer que ia colocar os morenos pra nadar.
Já trocamos umas 4 folhas de desenhos e recados durante uma aula chata na faculdade. Rachando de rir de um colega natureba, que fedia e fazia o corredor inteiro sentir.
Já trocamos umas 4 folhas de desenhos e recados durante uma aula chata na faculdade. Rachando de rir de um colega natureba, que fedia e fazia o corredor inteiro sentir.
Com Taís, sempre foi praticamente impossível estar emocionalmente indiferente.
Já ri com ela de besteira. Já fiquei de mãos dadas durante uma palestra entediante, e nesse segurar de mãos senti que ela estava fraca, e triste.
Já saí do meio de um aniversário só pra passar numa pizzaria que ela estava, pra dar um abraço e conversar um pouco.
Devido ao meu afastamento da faculdade permanecemos muito tempo sem nos ver, mas sempre prometíamos programas nunca efetuados.
Sempre imaginei eu já formado na vida... com uns 50 anos encontrando ela na rua do nada, e fazendo um balanço de nossas vidas. Assim como meu pai faz com os amigos dele. Mas esse é um sonho que vou guardar sempre com carinho sob o travesseiro...
E sempre que tiro esse sonho debaixo do travesseiro pra contemplar... vejo uma pessoa sorrindo da cabeça aos pés... que foi embora pra Pasárgada cedo demais.
Que cobriu quem estava ao seu redor de um pólem ságrado com o qual não se consegue mel. Mas se consegue amor. O mesmo amor que submergirá de meu coração toda vez que eu relembrar dela ao contar pra alguém. Ao ver a caneca laranja que trocamos, por ela não gostar de laranja e preferir verde.
Que cobriu quem estava ao seu redor de um pólem ságrado com o qual não se consegue mel. Mas se consegue amor. O mesmo amor que submergirá de meu coração toda vez que eu relembrar dela ao contar pra alguém. Ao ver a caneca laranja que trocamos, por ela não gostar de laranja e preferir verde.Convidei-a pra minha apresentação de teatro inúmeras vezes e ela não pode ir. Talvez Deus estava impedindo uma maior aproximação sentimental. Ele sabe o que faz. Mas minha vida sempre teve e sempre terá uma poltrona vermelha reservada à Taís Castro Moura e Silva. E sei que quando estiver no palco, ela poderá me ver.