sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Estou meio preocupado comigo mesmo. Não me detenho a uma forma de egocentrismo... mas acho que tenho me preocupado demais pelo que está fora da minha vida.
Por que eu tenho que me preocupar por alguém que não faz mais parte da minha vida?
Isso atormenta, justamente pelo próprio contexto estar um tanto quanto frouxo...
O que será isso? Será uma vontade de expandir? Um desejo inconsciente de ser onipresente?
Ou talvez receio de receber energias negativas, um mau agouro por não ter uma relação harmoniosa com alguém...
Não sei porque, nem o que é, mas sei que enxe o saco, dá uma sensação estranha na barriga, o trapézio se contrai, e sinto como se os neurônios estivessem em uma trincheira, uns contra os outros! Por que esse desejo?
Daí caímos no desejo profetizado por Siddharta Gautama, iluminado oriental.
A erva daninha da humanidade é o desejo. Desejo do bem-estar, desejo da luxúria, desejo da fama, desejo de comer.
Daí não se pode confundir com SONHO. Sonhos são saciáveis, desejos não. Desejo sempre sofre mitose. Sonho não.
Eu tento encarar esse desejo, mesmo. Sei que quando os desejos são mantidos sob rédeas curtas, tudo fica bem...
Acho que preciso voltar o centro pra dentro de mim. Concentrar, atentar pra dentro, sempre dentro...

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ESTATUTO DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Thiago de Mello Santiago do Chile, abril de 1964

Ícone incompleto.

Palavras são cobertores que me protegem do frio, mas me sufocam no calor!
Ahhhh mas na maioria dos dias eu prefiro dormir no relento! De barriga pra cima, com a grama molhada sob mim!
EU GOSTO DE DORMIR SOB O CÉU ABERTO!
Onde as estrelas não me mentem, nem negam seu brilho!
Eu simplesemente abomino o poder sedativo das palavras. Em sua bula está escrito para que enfermidades usar, mas a parte com os efeitos colaterais está inexistente!
Frio? Sensação de perda de energia para o ambiente.
Calor? Sensação de ganho de energia do ambiente.
Frioooooo, Céu, leve minh'alma, minha energia!
Não me venha com essa energia podre que me parasita!
ME LIBERTE! Me jogue um balde de água da fonte mais limpa!
Guarde o chocolate para você! E as uvas para mim!
Pode ficar com minha caverna, eu quero voar umas galáxias por aí, em outra vida eu volto!
Me cante um canção de ninar. Ninar a decepção. Que hiberne! Que fique tudo debaixo do cobertor! Eu sou do Mundo da energia sutil, do roçar de rosto no lençol cheiroso de amaciante, do grudar bala dura no dente do fundo. Do Mundo do dar a mão enquanto o sol se põe. Tudo em silêncio absoluto. A palavra mente. O corpo não. A palavra é incompleta. Um gesto não.
PAREM DE ESTUPRAR OS DICIONÁRIOS!!!!!!!!

domingo, 29 de novembro de 2009

Língua decepada.

Sinto um fio de fumaça inodora beijar minha cabeça de baixo pra cima, formando uma máscara pseudo-protetora, com a mesma função dos óculos de sol. E um filete de fumaça entra no meu ouvido em segredo, como uma picada de pernilongo, imperceptível.
Orvalhou em minha cabeça e escorreu pra dentro de minha mente, deixando um rastro de corrosão no caminho.
Gota a gota foi enxendo o seio sob meus olhos, e minha garganta se trancou para não contaminar o resto de meu ser.
Se partiu em dois, cada qual pro seu canto, cada canto sustentando um manto
manto fedido, fofo, com sabor de nata doce.
No manto um lago. Lago onde a água não hidrata todas as célular da planta do pé.
Lança chicotes de água fria que estremece minha lombar, abraça meus pés e não solta mais. Vira gelo. Gelo eterno que contém relíquias sonoras, o ruído do alvorecer do planeta. Guardado em frascos. QUEM VAI QUERER? QUEM VAI QUERER?
É baratinho. Sem esse ruído todas as portas se fecharão pra você. BLAM! Porta! Por que passar pela porta? Eu prefiro rolar por debaixo da catraca, tomando goles de sorriso, goles que enxem meu pote, de iogurte! Iogurte com OITO ANOS DE VALIDADE!
Coalhada! Com álcool, bebida de adulto. Me deixa! Me beija! Não morda a minha voz!
Lavo o seu pé com água fria da cachoeira, lave a minha vida! Me afogue no Tietê! Me afogue... em você! Cárie, lixo, bactéria, ramela, olhos vermelhos... de dor... de emoção... de fumaça!
Pai, minha língua é grande demais! Sempre mordo-a! Sai sangue! Mas não faz casquinha...
Vai um real aí? Vem um real aqui? Não? Tudo bem, eu volto a pé pra casa? Ah, minha casa se incendiou? Eu sei, a culpa foi minha. Devia ter feito cirurgia em meu tumor com as próprias unhas...

Afino.


Afinidade acontece. um mesmo signo, um mesmo par de sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira.Afinidade acontece entre seres humanos. A mesma frase dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a certeza das semelhanças entre o que se canta e o que se escreve.Afinação acontece. Um mesmo acorde, um mesmo som, uma mesma harmonia.Afinação acontece entre instrumentos musicais.A mesma nota repetidas vezes, a busca pela perfeição sonora e a certeza das similaridades entre um tom acima e um tom abaixo.A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais. Descobrem afinidades humanas entre si no mesmo instante em que os seres humanos descobrem afinações musicais dentro deles mesmos.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sonharia

Ontem eu sonhei.

Sonhei que estava voltando pra casa. No caminho liguei pra minha amiga e exigi que saíssemos juntos. Passei em sua casa para buscá-la. Ela não ficava pronta, nunca.
Fui pra um restaurante cuja iluminação inebriava o ambiente à meia-luz.
Te encontrei lá. Te abracei lá. Oceanei lá. Tive medo lá. Tive desejo lá. Tive amor lá.
Te respeitei, pelo meu medo, pelo meu amor. Você me beijou. Eu estremeci. Como se alguém me empinasse feito pipa, e eu abraçasse uma nuvem gordinha e molhada, branquinha que pairasse.
Nosso beijo não combinou, embora eu me esforçasse pra que combinasse.
Nos tacaram objetos, houve burburinho. Te chamei pra ir pra longe. Você quis. Eu acordei transpirando, mas não pelo edredom.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Feito.

Bem louco isso, mas resolvi escrever aqui bem no trecho "Eu quero a verdade do olhar" da música Eu quero sol nesse jardim - Catedral.

Quanta verdade transbordando desses olhos. Quanta sinceridade. Quanto amor. Quanto afeto. Quanto brilho morando aí dentro, que parece que não acaba.

E é incrível o poder de persuasão cordiano que os mesmos têm.

Hoje eu vi os seus olhos marejarem, e pelos Céus. Induziram duas cordais vocais minhas a se entrançarem e escorrerem pelas paredes da minha faringe. Fez meu coração parecer uma grande peça de manteiga sambando sobre um prato no microondas.

Me senti como uma criança tentando com as próprias mãos devolver o que escorreu do sorvete cascão 3 bolas para o topo do sorvete. Totalmente em vão, e com pioras eminentes.

Tenho medo de machucar a laranja enquanto descasco com a faca.

Às vezes dá insegurança se o meu toque causa aumento do nível de cortizol.

Pode parecer exagero, mas não é melhor pecar pelo excesso de esmero do que pela falta?

Exaltação? Não. Cuidado. Com o que se toma cuidado se pode ter por vidas e mais vidas. Gerações e mais gerações. Com o que e com quem. E é o que eu quero.

sábado, 3 de outubro de 2009

Laranja.


Há algumas horas, movido por uma culpa devido ao meu assíduo ócio, resolvi malhar.
Tenho dó de gastar grana com academia, e como aqui tem uns aparelhos de musculação, resolvi me virar com o que dava. Malhar bíceps e peito, a princípio.
Fiquei surpreso de como eu realmente mudei de anos pra cá, pois no meu ápice do ócio levantei tranquilamente a mesma quantidade de peso que eu levantava no meu apogeu halterofílico, há uns 4 anos.
Malhei até meus braços ficarem duros, sem movimento, e lembrei da dor que é de desenferrujar. Enfim, não é esse o ponto que eu quero me ater.
Além disso, hoje eu não comi bem. Nada bem. Minhas necessidades diárias de proteínas, carboidratos e vitaminas x devem ter chegado à metade, suando.
Então eu não estava afim de comer porcaria, e estava com sede. Solução? Uma laranja!
Usei a lendária técnica fácil de comer laranja sem precisar descascar pois sempre fui um desastre nisso. Cortei-a em quatro partes iguais, com os meridianos passando pelo umbigo da laranja.
Então se pega a vítima frutífera pelas duas pontas da casca, se puxa com os dentes e voilá. Eis o seu pedaço de laranja descascado sem nenhum esforço, sem brigar com a faca, e sem se frustar ao perceber que se machucou a laranja.
Se o processo for perfeito, você não terá problemas aluns. Mas se acontecer algum imprevisto, como a casca rasgar, ou algo do tipo, você se sujará um pouco como eu.
Minha aplicação na técnica não foi satisfatória. O que eu tive de fazer? Devorar a poupa da laranja na casca feito um animal.
E eu mordia, e escorria o suco alaranjado pelas minhas mãos. Era bom. Lembrei da minha infância comendo manga e percebi que se trata de um prazer múltiplo, não só de satisfazer o paladar, mas tambem o tato, o olfato.
E não me senti irritado pelo fiapos de laranja que ficavam presos dentre os dentes da frente, coisa que eu sempre tive repugnância.
E ignorei o ritual de se cuspir a semente inteira. Por que se tem de cuspir? Mordi, dilacerei, triturei, engoli, debulhei a laranja por completo.
Senti um prazer de criança que rola descalça na terra, de formiga que cai em açucareiro. Deixei uma poça alaranjada sobre a pia. Fiz o mesmo com mais três laranjas seguidas. Eu já não queria comê-las sem me sujar.
Me lembrei na hora da música Cio da Terra - Milton Nascimento, mais especificamente do trecho
"Roubar da cana a doçura do mel. Se lambuzar de mel." e "Forjar do trigo o milagre do pão. E se fartar do pão."
A fartura, o lambuzo não está na quantidade massiva do objeto. Mas na forma como você lida com ele.
Se eu tivesse comido 50 gomos de laranjas impecáveis, e 50 pães, eu não me sentiria farto, tão pouco lambuzado. Me sentiria cheio, somente. Cheio, como um tanque de gasolina. Somente cheio, empanturrado.
E é dessa maneira que eu gosto de viver a vida. Com fartura e lambuzado, e não cheio ou empanturrado. Me lambuzar de pessoas, ter fartura de amor. Me lambuzar com a arte, ter fartura de conhecimento.
E não cheio de pessoas, empanturrado de amor, cheio de arte ou empanturrado com conhecimento.
E qual a espessura da barreira que te separa disso? Por que não fazer? O preço que eu tive de pagar foi me dirigir ao lavabo e lavar as mãos e o rosto. Menos de um minuto. Ah sim, e o preço de três laranjas, que não sei quanto custam. Prazer barato não? Experimentei a tese de que os melhores prazeres da vida são gratuitos.
Me lembrei de um churrasco que uma amiga pediu pra eu colocar mais carvão na churrasqueira, e eu coloquei um papel na mão pra não empretejar as mãos e os dedos.
Ela me chamou de bicha, tacou a mão no saco de carvão e pôs ela mesmo o carvão na churrasqueira. Tive vergonha. Hoje eu enfio a cara na laranja, e tenho orgulho disso.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Lavar'alma...

E no mesmo dia, tem de vir o equilíbrio.
Vou resgatar uma experiência minha há aproximadamente 13 anos... Meu primeiro banho de chuva!!
Eu tinha 6 anos, estava em meu primeiro ano na escola.
Pra mim a chuva machucava. Fazia mal. Matava. Afinal, qualquer coisa relacionada à chuva minha mãe sufocava.
-Não pode tomar chuva! Vai ficar doente!
-Vai pegar uma pneumonia!
-Tá chovendo, não pode sair pra brincar!
-Não pode passear com o cachorro, tá chovendo!
Então, eu tinha medo da chuva. Evitava cada pinguinho. Até que um dia, como sempre eu estava esperando minha mãe chegar pra me buscar na escola. Eu sempre era o último aluno a ir embora porquê minha mãe era a última que chegava pra me buscar.
E então aconteceu o que ia acontecer um dia de um jeito ou outro.
Começou a chover, e eu sem guarda-chuva do Mickey nem nada.
Tomei uma rajada de chuva no peito, e fui atingido na pequena cabeça também, enquanto eu volvia para a trincheira.
Esperei pela dor física. Claro, a qualquer momento ela iria me assaltar. Esperei, com uma careta.
E nada. Ei, minha mãe me enganou?
Expus meu braço à outra rajada. Me molhei. Entrei debaixo daquele chuveiro molhado. Caramba, como é bom!!!! Por que as pessoas fogem disso?! Pra que existem guarda-chuvas?! Pra que existem chuveiros?!
E saí correndo, sentindo aquela sensação completamente nova, debaixo da chuva.
E enfiava o pé na poça, jogava a água, chutava a poça. Fiz a maior zona. Os dois pés ensopados, cada meia pesando 2 quilos, coisa que não suporto hoje em dia!
Me senti o próprio Gene Kelly em Singing in the Rain, mas me divertindo muito mais!
Mais legal do que piscina. Vi uma caixa de fósforos cinza estacionar defronte à escola.
Saí correndo com um sorrisão na cara pra contar a novidade pra mãe. Dizer que ao contrário do que ela ensinava, a chuva não faz mal. Não machuca.
Vi uma cara de desespero dela.
-MENINO!!! QUE QUE É ISSO??
Fui abduzido pra dentro do carro, ouvindo xingo dela, mas feliz.
Cheguei em casa, tomei banho contra a minha vontade, pois disse que já estava limpo por causa da chuva.
Fiquei sequinho, cheirosinho. Acabou meu expediente de Indiana Jones. Voltei a ser o netinho da vovó, tomei meu caneco de leite com nescau e fui jogar video game.

Ser vivo.

Eu jurei pra mim mesmo que meu próximo post seria feliz. Tentei mas não deu, sinto muito!
Eu estou com coisas alegres pra escrever, mas outros fatos furaram a fila da U.T.I.
Eu tenho um boxer, o Thor, 9 anos de idade. Vulgo negão, ou preto, ou pêto, ou feioso...
Minha mãe me disse há alguns minutos que ele está com leishmaniose. E que teve de enxer o saco dos fiscais da saúde pra eles fazerem um segundo exame pra confirmar, ou eles já teriam o levado pra sacrificar.
Eu estou muito, muito triste, com um nódulo na garganta.
Comigo desde os 10 anos de idade, eu ensinei ele e aprendi com ele. Aprendemos juntos. Eu aprendi a adestrar cachorros, e ele a obedecer, dar a pata esquerda, a direita, deitar, fingir de morto, cumprimentar.
Eu ensinei ele a não brigar com os outros cachorros na rua.
Ele me ensinou que quando eu brigar com os outros humanos na rua, ele ainda ia me receber em casa com um cotoco que mexe de um lado pro outro.
Ensinei a ele que a mãe fica brava se ele entrar dentro de casa.
Ele me ensinou que se eu quiser dormir no quintal, sentado no chão, ele sairía do conforto do cobertor dele pra ficar deitado do meu lado ao relento.
Eu ensinei pra ele que não se pode pular na minha avó porque ela não aguenta.
Ele me ensinou que tem sentimentos também. Que é um ser vivente, filho de Deus.
Há quase três meses atrás perdi minha cachorra, Paçoca de 18 anos. Atropelada pela minha mãe, quando foi por o carro pra dentro. Mas da paçoca eu falo outro dia. Mas o Thor ficou uma semana triste. Procurava a Paçoca sob a roda que tinha passado sobre a cabeça dela. Procurava ela no banheiro. Chorava. Começou a se comportar como ele se comportava quando era filhote. Passou a me acordar pelas manhãs na cama. Queria colo. Quase invadia o carro pra ver se a gente não estava com ela escondida quando a gente chegava.
E é exatamente assim que eu vou ficar se o exame de confirmação der positivo e ele ter de ser sacrificado. Mas como eu tenho uma memória humana, será por muito mais de uma semana. Muito mais.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Comensalismo humano, avante!



Nem sabem o quanto eu titubeei pra escrever isso aqui hoje. Mas lembrei que só passo esse blog pra amigos próximos de confiança e que pro resto eu sou anônimo, então perfeito!
Hoje, depois de deixar duas amigas queridas no ponto de ônibus delas, atravessei o terminal e fiquei em frente ao meu.
Eis que me apareceu uma mulher. Ela era mulata, dois terços da minha altura e cabelo bem crespo. Andava descalça, trajava um moleton azul escuro sujo, e tudo o que cobria o colo dela era um saco de lixo preto rasgado. Repito, ela usava um saco de lixo como blusa. Como se era de esperar, por onde ela passava, abria um raio de distância entre pessoas de pelo menos um metro. Deu vontade de ter uma blusa, qualquer coisa pra dar pra ela se vestir, fazia frio. Me lembrei que meu cachorro tem uma blusa de frio, e ela não. Deu um aperto no coração.
Pessoas negavam grana que ela pedia. Ela tinha um voz muito aguda, formatada, do jeito que eu odeio!
Ela veio se aproximando de mim, e lembrei que eu tinha comprado dois pacotes de bolacha recheada de chocolate. E lembrei que eu sou guloso e amo bolacha de chocolate.
Ela parou a aproximadamente um metro de distância de mim, e começou a falar, pedir. A um metro de distância eu sentia o mau-hálito que ela tinha. Um metro de distância, sem exagero. É óbvio, quem se veste com um saco de, lixo não vai ter uma escova de dentes.
Ela sentiu que eu mantinha meus olhos nos olhos dela enquanto ela falava, e creio que por isso se delongou bastaaante discursando. Não por maldade eu parei de respirar enquanto ela falava. Era um cheiro muito forte. Fucei em minhas sacolas do mercado e lhe dei um litro de leite. Proteínas, vitaminas, melhor do que bolacha recheada, certo? Ela pegou a caixa sem olhar nos meus olhos e saiu.
Então tive uma mini-epifania. É bastante cômodo o discurso que se deve ensinar a pescar e não dar os peixes. O discurso capitalista de que todos os cidadãos tem as mesmas oportunidades, e que você, ó jovem burguês, não deve ficar com a consciência pesada ao ver miseráveis na rua, pois vivemos em regime democrático e certamente aquela pessoa não deu valor aos estudos.
Oportunidade? Quem daria oportunidade àquela mulher? Nem o bar do zé-maria que frita coxinhas em óleo velho de Fusca daria oportunidade pr'aquela mulher.
Dei o "peixe" pra ela, e ficaria mal comigo mesmo se não tivesse dado. Aquela caixa de leite não faria diferença na minha vida, eu como qualquer porcaria no lugar. Agora quanta diferença fez na vida dela? Toda.
Sabe, to dizendo isso também pra lembrar, que me dá ódio de pessoas que compram quitutes importados pro seu cachorrinho de estimação, e até dão festa de aniversário, com direito a bolo de cachorro e convidados.
Vão à merda, por que não pegam uma criança de rua e dão um presente de aniversário, uma festa, um abraço, um sorriso? A criança vai te retribuir muito mais do que com lambidas na cara e merda no seu tapete.
E você, que é sustentado pelos pais, pare pra pensar. Você é um pedinte também, depende de outra pessoa pra ter a roupa que tem, comer o que come e ter a saúde que tem, mas não depende do Governo. Então, o que você tem de especial a mais do que essas pessoas da rua? A única coisa é que você dispõe fontes monetárias mais bem providas e estáveis. Nada foi conseguido por você, mas por alguém, portanto você só não está na mesma situação pelo amor (forçado por lei ou não) de alguém por você. Pense nisso antes de entortar o nariz. Se vocês tivessem nascido com as condições de vida inversas, você poderia estar pior do que o mendigo, e o mendigo melhor do que você no seu lugar.
Desculpem se soou moralista, mas não foi essa a intenção. Foi um desabafo.
Ah sim, e só pra fechar com chave de ouro, logo após ter visto uma mulher com um saco de lixo de blusa passando fome, entrei no ônibus e ouvi uma mulher reclamando da vida, desesperada pois não tinha depilado a virilha. Talvez isso tenha contribuído com a minha indignação... só talvez...

sábado, 12 de setembro de 2009

Melodia Sentimental - Heitor Villa-Lobos

Acorda, vem ver a lua Que dorme na noite escura Que surge tão bela e branca Derramando doçura Clara chama silente Ardendo meu sonhar As asas da noite que surgem E correm o espaço profundo Oh, doce amada, desperta Vem dar teu calor ao luar Quisera saber-te minha Na hora serena e calma A sombra confia ao vento O limite da espera Quando dentro da noite Reclama o teu amor Acorda, vem olhar a lua Que dorme na noite escura Querida, és linda e meiga Sentir meu amor e sonhar

Essa talvez seja a música e a poesia mais importante da minha vida. Com poema de Dora Vasconcelos, foi composta nos anos 50 para o filme "Green Mansions" de Mel Ferrer. Foi gravada por Maria Bethânia no álbum Brasileirinho e por Zizi Possi, disponível no álbum Millenium. Ambas as versões magníficas, maravilhosas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Ciência comprova que ser normal pode fazer mal.

Que sensação estranha essa de se sentir incompleto. Por que acontece isso? E questiono mais, por que geralmente a primeira coisa que vem à mente do ser humano é que se pode preencher essa lacuna metafísica com outro ser humano?
Antes de eu namorar pela primeira vez em minha vida, jurava que seria a solução de todos os problemas psicológicos que eu carregava. Besteira.
O mais interessante é que, parando pra analisar, quando eu era criança não sentia esse vácuo frio aqui dentro, e sinto que esse vazio era preenchido pelos meus pais. Claro. Estava triste durante a madrugada, era só correr pra cama dos meus pais e pedir uma beira entre os dois. Aquela energia parental invadia minha alma e era mais eficaz do que sal sob a língua para aumentar a pressão sanguínea.
Por que será que eu não vou mais pra cama da minha mãe quando me sinto angustiado? Por que minha mãe não vai pra cama da minha avó quando ela se sente triste?
Vejo isso como um claro regresso do ser humano que se dá quando ele "amadurece", e lamento por você cuja cabeça foi preenchida por "Que pensamento tonto" quando leu sobre minha avó logo acima.
Segundo o recentemente desencarnado psicólogo francês Pierre Weil, você e eu sofremos de uma patologia social batizada por "Normose" que designa a patologia da normalidade; quando o censo comum causa injúrias, psicológicas ou não, ou até mesmo morte. Podemos exemplificar com o cigarro nos anos 80 que era signo de status social; gastar 3000$ em uma única peça de roupa somente para se sentir engajado em um grupo social, e até mesmo algumas culturas que repudiam a aproximação de pessoas ou mutilam o corpo das mulheres com certa idade.
O censo comum de que é infantil, inadequado, ou até mesmo absurdamente homossexual que eu, um homem maior de idade de quase 1,90m de altura corra pra cama de meus pais chorando quando estou amargurado, impede a possibilidade simples de isso funcionar assim como funcionava quando eu tinha 4 anos de idade. Afinal, por que não funcionaria mais?
É difícil lutar contra isso por ser de cunho social, e estarmos inserido em uma sociedade fortalecida, mas eu me esforço. Nesse quesito eu aprendo bastante com os meus cachorros. Por que quando eu encontro alguém que gosto na rua, não é bem-visto que eu lhe agarre com as pernas, coce a barriga como eu faço com meus cachorros? Normose. O censo comum orienta que homens cumprimentem homens com um aperto de mão firme e forte acompanhado de três tapas nas costas. E nunca, eu disse nunca beije outro homem no rosto. Ou esse simples gesto dará margem para que as testemunhas livremente deduzam que você é homossexual. O que tem haver um beijo no rosto com opção sexual? Ou será que todo cumprimento com beijo no rosto é uma expressão de sexualidade? Se for assim, tantas pessoas já sentiram minha sexualidade, inclusive minha mãe, meu pai e minha avó. Além disso, por que essa caça googleânica por indivíduos homossexuais? Normose, enquadrada na seção do preconceito. A nossa sociedade atual é análoga à população contemporânea à Santa Inquisição que procurava bruxaria em todo ato, gesto, dizeres e comportamentos. Nós somos do mesmo jeito, mas procuramos homossexualismo em vez de bruxaria. Provando isso, afirmo que a probabilidade de você ter pensado que eu sou homossexual simplesmente por eu ter escrito isso é alta. E duplica se você for homem. Expandí-vos, ó massas cefálicas!
É difícil, mas lute contra a normose. E então as relações humanas poderão ser menos consumidas pelo orgulho e pela repressão de palavras, de sentimentos, de amor.
Há uma grande possibilidade de que esse vazio aqui dentro seja um efeito a longo prazo da normose. Será? Aliás, deu uma vontade de oferecer uma flor pra uma senhorinha que eu não conheço que vende algodão-doce na esquina de casa, acompanhado de um beijo carinhoso. Talvez assim eu faça a semana dela mais feliz, e a minha também.

Imagem - Pierre Weil, autor de "A Normose" e "O Corpo Fala"


Afinidade.


Afinidade acontece. um mesmo signo, um mesmo par de sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira.
Afinidade acontece entre seres humanos. A mesma frase dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a certeza das semelhanças entre o que se canta e o que se escreve.
Afinação acontece. Um mesmo acorde, um mesmo som, uma mesma harmonia.
Afinação acontece entre instrumentos musicais.
A mesma nota repetidas vezes, a busca pela perfeição sonora e a certeza das similaridades entre um tom acima e um tom abaixo.
A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais. Descobrem afinidades humanas entre si no mesmo instante em que os seres humanos descobrem afinações musicais dentro deles mesmos.

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