segunda-feira, 30 de novembro de 2009

ESTATUTO DO HOMEM (Ato Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, o uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Thiago de Mello Santiago do Chile, abril de 1964

Ícone incompleto.

Palavras são cobertores que me protegem do frio, mas me sufocam no calor!
Ahhhh mas na maioria dos dias eu prefiro dormir no relento! De barriga pra cima, com a grama molhada sob mim!
EU GOSTO DE DORMIR SOB O CÉU ABERTO!
Onde as estrelas não me mentem, nem negam seu brilho!
Eu simplesemente abomino o poder sedativo das palavras. Em sua bula está escrito para que enfermidades usar, mas a parte com os efeitos colaterais está inexistente!
Frio? Sensação de perda de energia para o ambiente.
Calor? Sensação de ganho de energia do ambiente.
Frioooooo, Céu, leve minh'alma, minha energia!
Não me venha com essa energia podre que me parasita!
ME LIBERTE! Me jogue um balde de água da fonte mais limpa!
Guarde o chocolate para você! E as uvas para mim!
Pode ficar com minha caverna, eu quero voar umas galáxias por aí, em outra vida eu volto!
Me cante um canção de ninar. Ninar a decepção. Que hiberne! Que fique tudo debaixo do cobertor! Eu sou do Mundo da energia sutil, do roçar de rosto no lençol cheiroso de amaciante, do grudar bala dura no dente do fundo. Do Mundo do dar a mão enquanto o sol se põe. Tudo em silêncio absoluto. A palavra mente. O corpo não. A palavra é incompleta. Um gesto não.
PAREM DE ESTUPRAR OS DICIONÁRIOS!!!!!!!!

domingo, 29 de novembro de 2009

Língua decepada.

Sinto um fio de fumaça inodora beijar minha cabeça de baixo pra cima, formando uma máscara pseudo-protetora, com a mesma função dos óculos de sol. E um filete de fumaça entra no meu ouvido em segredo, como uma picada de pernilongo, imperceptível.
Orvalhou em minha cabeça e escorreu pra dentro de minha mente, deixando um rastro de corrosão no caminho.
Gota a gota foi enxendo o seio sob meus olhos, e minha garganta se trancou para não contaminar o resto de meu ser.
Se partiu em dois, cada qual pro seu canto, cada canto sustentando um manto
manto fedido, fofo, com sabor de nata doce.
No manto um lago. Lago onde a água não hidrata todas as célular da planta do pé.
Lança chicotes de água fria que estremece minha lombar, abraça meus pés e não solta mais. Vira gelo. Gelo eterno que contém relíquias sonoras, o ruído do alvorecer do planeta. Guardado em frascos. QUEM VAI QUERER? QUEM VAI QUERER?
É baratinho. Sem esse ruído todas as portas se fecharão pra você. BLAM! Porta! Por que passar pela porta? Eu prefiro rolar por debaixo da catraca, tomando goles de sorriso, goles que enxem meu pote, de iogurte! Iogurte com OITO ANOS DE VALIDADE!
Coalhada! Com álcool, bebida de adulto. Me deixa! Me beija! Não morda a minha voz!
Lavo o seu pé com água fria da cachoeira, lave a minha vida! Me afogue no Tietê! Me afogue... em você! Cárie, lixo, bactéria, ramela, olhos vermelhos... de dor... de emoção... de fumaça!
Pai, minha língua é grande demais! Sempre mordo-a! Sai sangue! Mas não faz casquinha...
Vai um real aí? Vem um real aqui? Não? Tudo bem, eu volto a pé pra casa? Ah, minha casa se incendiou? Eu sei, a culpa foi minha. Devia ter feito cirurgia em meu tumor com as próprias unhas...

Afino.


Afinidade acontece. um mesmo signo, um mesmo par de sapatos caramelo, um mesmo livro de cabeceira.Afinidade acontece entre seres humanos. A mesma frase dita ao mesmo tempo, o diálogo mudo dos olhares e a certeza das semelhanças entre o que se canta e o que se escreve.Afinação acontece. Um mesmo acorde, um mesmo som, uma mesma harmonia.Afinação acontece entre instrumentos musicais.A mesma nota repetidas vezes, a busca pela perfeição sonora e a certeza das similaridades entre um tom acima e um tom abaixo.A incrível mágica acontece quando os instrumentos musicais. Descobrem afinidades humanas entre si no mesmo instante em que os seres humanos descobrem afinações musicais dentro deles mesmos.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sonharia

Ontem eu sonhei.

Sonhei que estava voltando pra casa. No caminho liguei pra minha amiga e exigi que saíssemos juntos. Passei em sua casa para buscá-la. Ela não ficava pronta, nunca.
Fui pra um restaurante cuja iluminação inebriava o ambiente à meia-luz.
Te encontrei lá. Te abracei lá. Oceanei lá. Tive medo lá. Tive desejo lá. Tive amor lá.
Te respeitei, pelo meu medo, pelo meu amor. Você me beijou. Eu estremeci. Como se alguém me empinasse feito pipa, e eu abraçasse uma nuvem gordinha e molhada, branquinha que pairasse.
Nosso beijo não combinou, embora eu me esforçasse pra que combinasse.
Nos tacaram objetos, houve burburinho. Te chamei pra ir pra longe. Você quis. Eu acordei transpirando, mas não pelo edredom.

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A excentricidade cósmica do alasão humanóide, que ostenta galopes indetermináveis planeta adentro e afora.