terça-feira, 15 de setembro de 2009

Comensalismo humano, avante!



Nem sabem o quanto eu titubeei pra escrever isso aqui hoje. Mas lembrei que só passo esse blog pra amigos próximos de confiança e que pro resto eu sou anônimo, então perfeito!
Hoje, depois de deixar duas amigas queridas no ponto de ônibus delas, atravessei o terminal e fiquei em frente ao meu.
Eis que me apareceu uma mulher. Ela era mulata, dois terços da minha altura e cabelo bem crespo. Andava descalça, trajava um moleton azul escuro sujo, e tudo o que cobria o colo dela era um saco de lixo preto rasgado. Repito, ela usava um saco de lixo como blusa. Como se era de esperar, por onde ela passava, abria um raio de distância entre pessoas de pelo menos um metro. Deu vontade de ter uma blusa, qualquer coisa pra dar pra ela se vestir, fazia frio. Me lembrei que meu cachorro tem uma blusa de frio, e ela não. Deu um aperto no coração.
Pessoas negavam grana que ela pedia. Ela tinha um voz muito aguda, formatada, do jeito que eu odeio!
Ela veio se aproximando de mim, e lembrei que eu tinha comprado dois pacotes de bolacha recheada de chocolate. E lembrei que eu sou guloso e amo bolacha de chocolate.
Ela parou a aproximadamente um metro de distância de mim, e começou a falar, pedir. A um metro de distância eu sentia o mau-hálito que ela tinha. Um metro de distância, sem exagero. É óbvio, quem se veste com um saco de, lixo não vai ter uma escova de dentes.
Ela sentiu que eu mantinha meus olhos nos olhos dela enquanto ela falava, e creio que por isso se delongou bastaaante discursando. Não por maldade eu parei de respirar enquanto ela falava. Era um cheiro muito forte. Fucei em minhas sacolas do mercado e lhe dei um litro de leite. Proteínas, vitaminas, melhor do que bolacha recheada, certo? Ela pegou a caixa sem olhar nos meus olhos e saiu.
Então tive uma mini-epifania. É bastante cômodo o discurso que se deve ensinar a pescar e não dar os peixes. O discurso capitalista de que todos os cidadãos tem as mesmas oportunidades, e que você, ó jovem burguês, não deve ficar com a consciência pesada ao ver miseráveis na rua, pois vivemos em regime democrático e certamente aquela pessoa não deu valor aos estudos.
Oportunidade? Quem daria oportunidade àquela mulher? Nem o bar do zé-maria que frita coxinhas em óleo velho de Fusca daria oportunidade pr'aquela mulher.
Dei o "peixe" pra ela, e ficaria mal comigo mesmo se não tivesse dado. Aquela caixa de leite não faria diferença na minha vida, eu como qualquer porcaria no lugar. Agora quanta diferença fez na vida dela? Toda.
Sabe, to dizendo isso também pra lembrar, que me dá ódio de pessoas que compram quitutes importados pro seu cachorrinho de estimação, e até dão festa de aniversário, com direito a bolo de cachorro e convidados.
Vão à merda, por que não pegam uma criança de rua e dão um presente de aniversário, uma festa, um abraço, um sorriso? A criança vai te retribuir muito mais do que com lambidas na cara e merda no seu tapete.
E você, que é sustentado pelos pais, pare pra pensar. Você é um pedinte também, depende de outra pessoa pra ter a roupa que tem, comer o que come e ter a saúde que tem, mas não depende do Governo. Então, o que você tem de especial a mais do que essas pessoas da rua? A única coisa é que você dispõe fontes monetárias mais bem providas e estáveis. Nada foi conseguido por você, mas por alguém, portanto você só não está na mesma situação pelo amor (forçado por lei ou não) de alguém por você. Pense nisso antes de entortar o nariz. Se vocês tivessem nascido com as condições de vida inversas, você poderia estar pior do que o mendigo, e o mendigo melhor do que você no seu lugar.
Desculpem se soou moralista, mas não foi essa a intenção. Foi um desabafo.
Ah sim, e só pra fechar com chave de ouro, logo após ter visto uma mulher com um saco de lixo de blusa passando fome, entrei no ônibus e ouvi uma mulher reclamando da vida, desesperada pois não tinha depilado a virilha. Talvez isso tenha contribuído com a minha indignação... só talvez...

Um comentário:

  1. Eu tive semelhante epifania no dia que estava no ônibus e, ao olhar para fora, vi uma senhora com idade bastante avançada sentada em uma bolsa enorme com roupas. Era bem tarde da noite e ela tinha o semblante triste. Ao mesmo tempo passavam duas crianças com um cachorro muito limpinho, escovado e elas passavam indiferentes por aquela senhora.
    Pra dizer a verdade, tive muitas crises dessa quando estava estudando em Copacabana, pois via cenas de total descaso humano lado-a-lado de cenas de completa futilidade por parte de algumas pessoas (como exemplo do dia que uma colega de turma chegou revoltada dizendo achar um absurdo ter que pular por cima daquelas "crianças drogadas" que ficam caídas na rua).

    Pesado, muito pesado.


    Seu texto me fez lembrar também, certa vez que estava lendo o blog de um professor da UERJ (creio que era do curso de Ciências Sociais) e ele reclamava como ficava incomodado com crianças pedindo dinheiro no sinal e fazendo aquelas argumentações típicas, que nós de classe média escutamos e proferimos sem pensar a respeito do ser humano que está naquela condição.


    Enquanto isso vejo muitas pessoas comemorarem a liberdade que elas possuem para consumir. Como o mundo é um lugar melhor...


    E estamos apenas observando um universo micro, situações de um cotidiano que está perfeitamente ao nosso alcance. Há ainda aqueles diversos outros seres humanos que sofrem longe de nós por esse modelo de civilização que adotamos.

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A excentricidade cósmica do alasão humanóide, que ostenta galopes indetermináveis planeta adentro e afora.