Há algumas horas, movido por uma culpa devido ao meu assíduo ócio, resolvi malhar.
Tenho dó de gastar grana com academia, e como aqui tem uns aparelhos de musculação, resolvi me virar com o que dava. Malhar bíceps e peito, a princípio.
Fiquei surpreso de como eu realmente mudei de anos pra cá, pois no meu ápice do ócio levantei tranquilamente a mesma quantidade de peso que eu levantava no meu apogeu halterofílico, há uns 4 anos.
Malhei até meus braços ficarem duros, sem movimento, e lembrei da dor que é de desenferrujar. Enfim, não é esse o ponto que eu quero me ater.
Além disso, hoje eu não comi bem. Nada bem. Minhas necessidades diárias de proteínas, carboidratos e vitaminas x devem ter chegado à metade, suando.
Então eu não estava afim de comer porcaria, e estava com sede. Solução? Uma laranja!
Usei a lendária técnica fácil de comer laranja sem precisar descascar pois sempre fui um desastre nisso. Cortei-a em quatro partes iguais, com os meridianos passando pelo umbigo da laranja.
Então se pega a vítima frutífera pelas duas pontas da casca, se puxa com os dentes e voilá. Eis o seu pedaço de laranja descascado sem nenhum esforço, sem brigar com a faca, e sem se frustar ao perceber que se machucou a laranja.
Se o processo for perfeito, você não terá problemas aluns. Mas se acontecer algum imprevisto, como a casca rasgar, ou algo do tipo, você se sujará um pouco como eu.
Minha aplicação na técnica não foi satisfatória. O que eu tive de fazer? Devorar a poupa da laranja na casca feito um animal.
E eu mordia, e escorria o suco alaranjado pelas minhas mãos. Era bom. Lembrei da minha infância comendo manga e percebi que se trata de um prazer múltiplo, não só de satisfazer o paladar, mas tambem o tato, o olfato.
E não me senti irritado pelo fiapos de laranja que ficavam presos dentre os dentes da frente, coisa que eu sempre tive repugnância.
E ignorei o ritual de se cuspir a semente inteira. Por que se tem de cuspir? Mordi, dilacerei, triturei, engoli, debulhei a laranja por completo.
Senti um prazer de criança que rola descalça na terra, de formiga que cai em açucareiro. Deixei uma poça alaranjada sobre a pia. Fiz o mesmo com mais três laranjas seguidas. Eu já não queria comê-las sem me sujar.
Me lembrei na hora da música Cio da Terra - Milton Nascimento, mais especificamente do trecho
"Roubar da cana a doçura do mel. Se lambuzar de mel." e "Forjar do trigo o milagre do pão. E se fartar do pão."
A fartura, o lambuzo não está na quantidade massiva do objeto. Mas na forma como você lida com ele.
Se eu tivesse comido 50 gomos de laranjas impecáveis, e 50 pães, eu não me sentiria farto, tão pouco lambuzado. Me sentiria cheio, somente. Cheio, como um tanque de gasolina. Somente cheio, empanturrado.
E é dessa maneira que eu gosto de viver a vida. Com fartura e lambuzado, e não cheio ou empanturrado. Me lambuzar de pessoas, ter fartura de amor. Me lambuzar com a arte, ter fartura de conhecimento.
E não cheio de pessoas, empanturrado de amor, cheio de arte ou empanturrado com conhecimento.
E qual a espessura da barreira que te separa disso? Por que não fazer? O preço que eu tive de pagar foi me dirigir ao lavabo e lavar as mãos e o rosto. Menos de um minuto. Ah sim, e o preço de três laranjas, que não sei quanto custam. Prazer barato não? Experimentei a tese de que os melhores prazeres da vida são gratuitos.
Me lembrei de um churrasco que uma amiga pediu pra eu colocar mais carvão na churrasqueira, e eu coloquei um papel na mão pra não empretejar as mãos e os dedos.
Ela me chamou de bicha, tacou a mão no saco de carvão e pôs ela mesmo o carvão na churrasqueira. Tive vergonha. Hoje eu enfio a cara na laranja, e tenho orgulho disso.
Tenho dó de gastar grana com academia, e como aqui tem uns aparelhos de musculação, resolvi me virar com o que dava. Malhar bíceps e peito, a princípio.
Fiquei surpreso de como eu realmente mudei de anos pra cá, pois no meu ápice do ócio levantei tranquilamente a mesma quantidade de peso que eu levantava no meu apogeu halterofílico, há uns 4 anos.
Malhei até meus braços ficarem duros, sem movimento, e lembrei da dor que é de desenferrujar. Enfim, não é esse o ponto que eu quero me ater.
Além disso, hoje eu não comi bem. Nada bem. Minhas necessidades diárias de proteínas, carboidratos e vitaminas x devem ter chegado à metade, suando.
Então eu não estava afim de comer porcaria, e estava com sede. Solução? Uma laranja!
Usei a lendária técnica fácil de comer laranja sem precisar descascar pois sempre fui um desastre nisso. Cortei-a em quatro partes iguais, com os meridianos passando pelo umbigo da laranja.
Então se pega a vítima frutífera pelas duas pontas da casca, se puxa com os dentes e voilá. Eis o seu pedaço de laranja descascado sem nenhum esforço, sem brigar com a faca, e sem se frustar ao perceber que se machucou a laranja.
Se o processo for perfeito, você não terá problemas aluns. Mas se acontecer algum imprevisto, como a casca rasgar, ou algo do tipo, você se sujará um pouco como eu.
Minha aplicação na técnica não foi satisfatória. O que eu tive de fazer? Devorar a poupa da laranja na casca feito um animal.
E eu mordia, e escorria o suco alaranjado pelas minhas mãos. Era bom. Lembrei da minha infância comendo manga e percebi que se trata de um prazer múltiplo, não só de satisfazer o paladar, mas tambem o tato, o olfato.
E não me senti irritado pelo fiapos de laranja que ficavam presos dentre os dentes da frente, coisa que eu sempre tive repugnância.
E ignorei o ritual de se cuspir a semente inteira. Por que se tem de cuspir? Mordi, dilacerei, triturei, engoli, debulhei a laranja por completo.
Senti um prazer de criança que rola descalça na terra, de formiga que cai em açucareiro. Deixei uma poça alaranjada sobre a pia. Fiz o mesmo com mais três laranjas seguidas. Eu já não queria comê-las sem me sujar.
Me lembrei na hora da música Cio da Terra - Milton Nascimento, mais especificamente do trecho
"Roubar da cana a doçura do mel. Se lambuzar de mel." e "Forjar do trigo o milagre do pão. E se fartar do pão."
A fartura, o lambuzo não está na quantidade massiva do objeto. Mas na forma como você lida com ele.
Se eu tivesse comido 50 gomos de laranjas impecáveis, e 50 pães, eu não me sentiria farto, tão pouco lambuzado. Me sentiria cheio, somente. Cheio, como um tanque de gasolina. Somente cheio, empanturrado.
E é dessa maneira que eu gosto de viver a vida. Com fartura e lambuzado, e não cheio ou empanturrado. Me lambuzar de pessoas, ter fartura de amor. Me lambuzar com a arte, ter fartura de conhecimento.
E não cheio de pessoas, empanturrado de amor, cheio de arte ou empanturrado com conhecimento.
E qual a espessura da barreira que te separa disso? Por que não fazer? O preço que eu tive de pagar foi me dirigir ao lavabo e lavar as mãos e o rosto. Menos de um minuto. Ah sim, e o preço de três laranjas, que não sei quanto custam. Prazer barato não? Experimentei a tese de que os melhores prazeres da vida são gratuitos.
Me lembrei de um churrasco que uma amiga pediu pra eu colocar mais carvão na churrasqueira, e eu coloquei um papel na mão pra não empretejar as mãos e os dedos.
Ela me chamou de bicha, tacou a mão no saco de carvão e pôs ela mesmo o carvão na churrasqueira. Tive vergonha. Hoje eu enfio a cara na laranja, e tenho orgulho disso.

Um dia te ensino a ingerir uma laranja de um outro jeito bem lambusado! Aprendi com minha mãe que aprendeu com meu vô!
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